Trinta e três semanas, pequenininha... E de repente eu me vejo
perguntando como se faz para cuidar de duas crianças de uma vez e se é
verdade que tudo isso está acontecendo com nossa família, como se só
agora a ficha começasse a cair: espera aí, eu estou grávida? Dentro de
pouco mais de um mês, teremos, mesmo, outro bebê em casa? Espera aí! Eu
não sei ser mãe de menina! OUtro bebê! E ela vai nascer tão pequenininha
e indefesa!... Ah, meu Deus!
Penso em todas essas questões como "sustos de tomada de consciência"
que, antes de desestabilizar, são bem-vindos. Com seu irmão aprendi que
o programar é uma faixa estreita e pouco garantida; que, no dia-a-dia,
valem os instintos, a força moral, a determinação e a paciência...
Agora, com seu irmão vivenciando plenamente seus dois anos, sendo
lindo e instigante como sempre foi, mas jamais um bebezinho, tem algo de
agre-doce em estar às vésperas de ter outro bebê nos meus braços: o
torvelinho encantador, provavelmente pela última vez; as mãozinhas
minúsculas sobre meus seios como estrelas do mar, provavelmente pela
última vez; aqueles dedinhos minúsculos aferrando-se aos meus com todo o
seu empenho, provavelmente pela última vez; a sensação indescritível da
sucção de uma boquinha minúscula e banguela sobre meus mamilos,
provavelmente pela última vez; a glória indescritível de surpreender
aqueles lábios virgens de palavras dizendo "mamã" pela primeira
vez, provavelmente pela última vez; a doçura de um corpinho minúsculo se
encaixando ao meu e nele se aninhando, provavelmente pela última vez...
Sua vinda, portanto, agora nos sabe a turbilhão e a última vez.
Sabe-nos ao calafrio de pular de uma altura imensa, rumo a um precipício
imprevisível mas que trará, sem dúvida, crescimento e ternura ao nosso
lar, dádivas essas que, por si só, endossam quaisquer espécies de
testemunhos e sacrifícios.
Sei que existem pessoas que marcam cada fase do desenvolvimento
infantil pelos sacrifícios a que elas os arrastam; nós aqui, entretanto,
vemos cada etapa pela dose de encanto e enlevo a que ela remete.
Então, apesar do frio na barriga absurdo, apesar de não saber nada
sobre como você virá ou como você será, apesar de não fazer a mais
pequena idéia de "como ser mãe de menina", gostaria de reiterar, uma vez
mais, quanto você é bem-vinda.
Pensem na morte. Nem sempre. Nem todos os dias. Não flertem com ela, que
isso ´mórbido. Mas considerem-na. Morrer faz parte da vida. Não é o
desejado, mas é ...
Há 14 anos
