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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Você nasceu...

Eu esperava alguma comoção interna há quando do seu nascimento.
Esperava te sentir sair de dentro de mim com um misto de dor e
ansiedade, premência e ventura. Não foi assim. Na verdade, o momento
preciso da sua vinda já se me começa a desvanescer, tal pudesse ser
absorvido pelas paredes de minha memória como um fato vulgar.
Acho que, no fundo, eu romanceava o parto. Algo como "andar em
trevas e, no final, vir a luz, redentora e possante, magnífica e
intensa". Não houve nada disso. Houve a realidade, dar tudo de mim
segundo por segundo para, ao fim, estarmos em segurança. Não senti
nenhum acréscimo de confiança ou estima a meu respeito. Simplesmente
continuo a mesma, com a diferença de que tenho você agora.
Entretanto, o romantismo existe e desfolha-se entre nós, como
pétalas suavíssimas de flores raras. Ele nos toca agora, envolve-nos e
surpreende-nos, numa intensidade tal, que desafia a arte poética.
Um amor tão completo e intenso, tão incondicional e absoluto, tão
suave e vulcânico, simplesmente abraça todos esses paradoxos e os
constrange a uma perene e inolvidável canção de ninar. Porque, sem
dúvida, para todos os efeitos, independendo dos efeitos, estamos juntas
agora. Esse instante, esse recorte de tempo e espaço, diminuto, não
obstante intensíssimo e inegável, está inscrito de forma insofismável na
história de nós duas. Na tecedura dos tempos, na arquitetura do
infinito, você e eu aqui estamos... primeiro sonho e canção, depois,
ansiedade e busca, agora, ternura em botão de vivências transformadoras.
Sei que os próximos anos não serão fáceis. Sei que a vida na Terra
tem como tônicas principais o desafio e o testemunho. Mas sei também que
o amor pode permeá-los e os redimir da dor do sofrimento puro e simples.
Estamos juntos, então, pequenininha... E embora não vá ser fácil,
embora não vá ser simples, será conssentido, porque existe amor... Por
cima, por baixo, em todas as direções, justificando e amparando,
corrigindo e semeando.
Hoje caiu o seu umbiguinho, o último resquício do elo físico que
outrora nos uniu. Que o laço que agora iniciamos seja tecido com o
melhor de cada uma de nós, e que não se desfaça jamais.
Todos nós te amamos, Mariles, e chega mesmo a parecer que você
sempre esteve aqui, tão natural foi sua adaptação a nossa casa.

sábado, 11 de julho de 2009

Relato do parto para Mariles

Você chegou há uma semana, sob as paredes íntimas do nosso lar. Meu
grito, teu choro, cumplicidade, milagre absoluto da vida e do amor.
De repente, era como se você estivesse aqui há tempos. Mais de uma
pessoa reparou nisso, em como você se encaixou, adequou, aninhou, como
se sempre tivesse vivido conosco.
Você é um bebê calmo, dorminhoco e mamão. Seus episódios de cólica
são curtos, porém intensos. Tenta virar-se e erguer a cabeça. Sua
presença enche nosso lar de ternura e satisfação.
Não sei o que mais dizer nesse primeiro momento, Mariles. Não que
não sinta mais nada, mas porque o que sinto ainda está muito
embaralhado, muito íntimo, muito indescritível.
Você esteve no hospital, mas já voltou. Nós te amamos e nos sentimos
realizados com a sua existência.
Sê bem-vinda uma vez mais, Mariles!

domingo, 21 de junho de 2009

Estamos quase lá

Ah, florzinha-estrela, como eu gostaria de conseguir sentar aqui e
te descrever, tim tim por tim tim, todas as delícias de sentir que
estamos chegando ao final! Como eu gostaria de conseguir te dizer quanto
os pródomos podem ser incômodos e bem-vindos, ao mesmo tempo! Como eu
gostaria de sentar e te escrever sobre o teu irmão, sobre a superação,
sobre a doçura que é te sentir encaixando e abrindo passagem, milímetro
a milímetro! Como eu gostaria de dizer que as portas de te dar à luz têm
mais de poesia que de dor! Como eu gostaria de te falar das tuas
ondulações no meu ventre, da forma como você vai de um lado para o
outro, como eu consigo, agora, me sentir enternecida ao te sentir ondear
de um lado para o outro, imaginando que parte do seu corpinho passa
através dos meus dedos! Como eu gostaria de conseguir te dizer que cada
dia é prenhe de expectativa e que, mesmo quando elas se vêem frustradas
ao final, sabe-me um gosto de ternura e união incrível! Como eu queria
saber como te falar que nos sinto unidas cada vez mais, próximas cada
vez mais, cúmplices cada vez mais, como se, na medida em que você abre
passagem através de mim, conquistasse mais espaço em meu coração, em
nossas vidas, em nossa história! COmo eu queria te descrever as
minudências do afeto do seu irmão por você, da doçura que ele expressa
ao falar na sua vinda, mesmo com idade tão tenra! Como queria ter ânimo
de sobra para descrever o teu quartinho lilás, a disposições das
roupinhas dentro das gavetas, a ternura da Diva quando imagina você
vindo!
Como eu gostaria de te falar dos divertimentos que ouso planejar
para nós quatro, da minha introspecção ao me preparar para te ofertar o
melhor de mim em uma formação que desejo seja intelectual, moral e
consciente, intensa e doce, firme e delicada! Como eu desejaria te dizer
todas essas coisas com o vagar da brisa e a intensidade do Sol!
Partilhar contigo as horas infinitas de espera e os momentos diminutos e
imensos de arrebatamento maternal!
Pode ser que amanhã você esteja em meus braços; pode ser que só
venha na semana que vem; pode ser que esteja ainda apenas na outra. Mas
em nossas vidas, você já está. Essa espera sem data tem algo de
prelúdio de ventura, de vislumbre de um horizonte que aponta para um
caminho igualmente difícil, desafiante, exigente... Mas lindo, porquanto
erigido e nutrido com muito, muito amor....

sexta-feira, 22 de maio de 2009

33 semanas

Trinta e três semanas, pequenininha... E de repente eu me vejo
perguntando como se faz para cuidar de duas crianças de uma vez e se é
verdade que tudo isso está acontecendo com nossa família, como se só
agora a ficha começasse a cair: espera aí, eu estou grávida? Dentro de
pouco mais de um mês, teremos, mesmo, outro bebê em casa? Espera aí! Eu
não sei ser mãe de menina! OUtro bebê! E ela vai nascer tão pequenininha
e indefesa!... Ah, meu Deus!
Penso em todas essas questões como "sustos de tomada de consciência"
que, antes de desestabilizar, são bem-vindos. Com seu irmão aprendi que
o programar é uma faixa estreita e pouco garantida; que, no dia-a-dia,
valem os instintos, a força moral, a determinação e a paciência...
Agora, com seu irmão vivenciando plenamente seus dois anos, sendo
lindo e instigante como sempre foi, mas jamais um bebezinho, tem algo de
agre-doce em estar às vésperas de ter outro bebê nos meus braços: o
torvelinho encantador, provavelmente pela última vez; as mãozinhas
minúsculas sobre meus seios como estrelas do mar, provavelmente pela
última vez; aqueles dedinhos minúsculos aferrando-se aos meus com todo o
seu empenho, provavelmente pela última vez; a sensação indescritível da
sucção de uma boquinha minúscula e banguela sobre meus mamilos,
provavelmente pela última vez; a glória indescritível de surpreender
aqueles lábios virgens de palavras dizendo "mamã" pela primeira
vez, provavelmente pela última vez; a doçura de um corpinho minúsculo se
encaixando ao meu e nele se aninhando, provavelmente pela última vez...
Sua vinda, portanto, agora nos sabe a turbilhão e a última vez.
Sabe-nos ao calafrio de pular de uma altura imensa, rumo a um precipício
imprevisível mas que trará, sem dúvida, crescimento e ternura ao nosso
lar, dádivas essas que, por si só, endossam quaisquer espécies de
testemunhos e sacrifícios.
Sei que existem pessoas que marcam cada fase do desenvolvimento
infantil pelos sacrifícios a que elas os arrastam; nós aqui, entretanto,
vemos cada etapa pela dose de encanto e enlevo a que ela remete.
Então, apesar do frio na barriga absurdo, apesar de não saber nada
sobre como você virá ou como você será, apesar de não fazer a mais
pequena idéia de "como ser mãe de menina", gostaria de reiterar, uma vez
mais, quanto você é bem-vinda.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

30 semanas...

Ma, vim aqui apenas para te dizer duas coisas:
primeira: sexta passada completamos juntas trinta semanas de gestação.
Às vezes sinto arrepios, achando que mais dez semanas assim será
profundamente exaustivo e tento sutilizar ainda mais a conexão entre nós
duas.
Segunda: O meu relato de parto, ou nosso, para ser mais honesta, será
escrito para você. Não me pergunte as razões aprofundadas disso nesse
momento: eu não sei. Mas sinto, de um modo instintivo, que é o que deve
ser feito.
Sigamos juntas, pequenininha.

domingo, 29 de março de 2009

Tudo e nada

Não sei porquê, hoje estou com vontade de te contar que foi um dia
normal. De dizer que seu irmão está testando os limites e aprendendo até
pode ir. Dizer que seu pai está com uma virose que oxalá não será nada.
Dizer que continuo me preparando emocionalmente para te dar à luz, e que
esses preparativos são tão intensos quanto sutis. Quero te dizer do
clima, que anda querendo esfriar e esquentar a um tempo só. Dizer que eu
me sinto absurdamente exausta e deliciosamente expectante. Dizer todas
essas coisas e muitas mais que não sei como dizer.
Gostaria de te falar do riso fácil de alguns dias, da introspecção
acurada de outros, das músicas que cascateiam pela nossa casa, da
realidade da sua presença virando planos, virando idéias, virando nome,
virando cor, virando vida. Da tua vida nascendo de mim e se estendendo
além de mim, solicificando-se pelas frestas da nossa casa.
E acho que não tenho mais nada para te dizer, Mariles.... Espero que
tenha conseguido te transmitir, para você, que me lerá desde o futuro,
um pouco das águas que correm no teu passado, que agora é nosso
presente, concreto, intenso, real e vital, muito embora este seja um
período, essencialmente, de preparação.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Meu amorzinho

Meu amor, deu uma vontade louca de te escrever agora. Assim, estilo confidência mesmo, íntimo e terno, embora você ainda seja uma coisinha minúscula dentro da minha barriga, intuo que dentro de você reside um ser forte e ativo, que espera apenas seu momento de recomeçar a vida. É doce pensar em você assim, "infante, água que sente na placenta", como diz a canção. Meu amor, meu amor, meu mistério de segredos, minha vida que revive, meu amor, meu bem... E então, agora que estou aqui em sua presença, não sei o que dizer. Tantas coisas eu queria te falar! De amor, de nossa família, de sonho, de sexo, de vida... Por que não? De coragem, de ideais, de loucura! Eu gostaria que você me visse, que me reconhecesse, que soubesse quem eu sou, quem nós somos, que tivesse a oportunidade, desde sempre, de ter despertadas percepções mais sutis e mais aprofundadas de si mesma, de nós e do mundo ao seu redor. Acho muito importante essa capacidade, essa condição de olhar, de aprofundar o olhar... Mas então, o que eu te falo? Falo de amor, falo da sua mãe, falo da vida, falo de tudo e de nada... Talvez seja o momento apenas de abrir o canal e te contar que estamos aqui, conscientes da tua presença e honrados por esse delicioso recomeço. A vida na Terra não é fácil. Os sofrimentos nos visitam sempre, especialmente se temos a ousadia de sermos diferentes. Entretanto, o preço da semelhança com o mundo é o de perdermo-nos de nós mesmos.